Uma pornografia muito mais curiosa, divertida, irreverente e subversiva do que o padrão, onde saradonas e saradões fazem poses clichê somente por grana. A pornografia alternativa, ou alt.porn, começou a expandir-se nos anos 80, tendo como primeiros adeptos gente da cena underground, geralmente ligados ao rock e à música eletrônica. Ganhou corpo com os clubes de rock, raves e inferninhos em geral, e acabou por “fincar a bandeira” de uma revolução pornográfica nos 90, com a criação, a proliferação e o sucesso de sites como Erotic BPM, Supercult, Suicide Girls, Burning Angel e NoFauxxx. No Brasil, quem vem ditando as regras nesse jogo é o X-Plastic - ou xplastic.net.
Pioneira no Brasil, juntamente com o fanzine Judith Blair, a turma da X-Plastic afirma não fazer arte erótica, e sim pornografia: “Não queremos nos esconder por trás da arte. É fácil tirar fotos de garotas nuas em cenas hardcore e dizer que é arte. Não importa, é pornografia", diz Rufião, um dos criadores da marca. "Quem olha decide o que é. Se você achar que é arte, ou o que você quiser, que bom. Nós fazemos pornografia, não nos consideramos artistas.
Gostamos de manter as coisas como elas foram feitas, retocando o necessário, mantendo a essência: o ser natural, de verdade. Antigamente não sabíamos usar o Photoshop muito bem", ele diz rindo. "Mas de uns tempos pra cá, estamos dando mais atenção à qualidade das fotos e dos vídeos”.
Rufião define a missão da X-Plastic: “Estamos aqui pra divertir as pessoas. Quem assiste nossos vídeos pode achar ridículo e rir, pode sentir tesão e se masturbar, pode achar bonito e usar mil teorias pra explicar... Não importa: o que queremos é mostrar algo interessante para quem decidiu comprar o vídeo, acessar nosso site, ler um zine ou uma revista que tenha algo nosso”.
A X Plastic é formada basicamente por Rufião, Barbella e Tatão. Os três se revezam nas funções de fotografia, gravação, iluminação e a atividade na Internet. Do outro lado da lente, roqueiras, clubbers, novas atrizes pornôs em seus universos particulares e imagens cruas, simplesmente curtindo o ato de se expor, de serem desejadas pelo que são. Assim como a realização do trabalho, a seleção das meninas é simples: “Vontade de fazer é o principal requisito”, diz Rufião.
Como algumas das boas descobertas sexuais, o início da X-Plastic começou numa brincadeira. No caso deles, uma filmagem em VHS de barbies “piratas” trepando ao som de punkrock. “Tudo começou em 1998 quando tínhamos uma banda de punkrock chamada Mapetis. Sempre falávamos em pornografia e trocávamos revistas e VHS que colecionávamos. Até que um dia resolvemos fazer um vídeo pornô. Pedimos emprestada uma filmadora HI-8 a um amigo e como não iríamos conseguir nenhuma mulher de verdade decidimos comprar umas barbies paraguaias de camelô. Colamos uns pelos pubianos de bombril, fizemos alguns orifícios pornográficos e pronto: tínhamos nossas atrizes!!!
Esse vídeo foi editado pelo nosso amigo JAJA num VHS estéreo e colocamos o grupo ToyDolls como trilha sonora. Mandamos para o MIX Brasil de 1998 e o vídeo foi selecionado”.
Depois, eles tomaram gosto e não pararam mais de fazer vídeos. "Fiz então contato com uma atriz pornô dos anos 90, a Estela Santos, que estava lançando um site na época", diz Rufião. "A Judith Blair fez a entrevista e nós gravamos. Mais uma vez, tudo com custo zero. Foi um grande momento para nós, entrar na casa de uma atriz pornô, que até então era uma lenda, só víamos nas revistas, e de repente estávamos ali, na sala dela. Ela foi muito legal e, depois de gravarmos todas aquelas cenas, em vez de sexo insano ela nos ofereceu um lanche e suco de laranja. Daí para a frente, fizemos muitos vídeos, sempre vendendo através do fanzine Judith Blair pelo correio”. Depois de algumas tentativas infrutíferas de manter um blog (foram expulsos de todos os hospedeiros), eles lançaram o site oficial em 2003, conseguiram vender bem seu material pela Internet e puderam comprar equipamentos de gravação e montagem.
Dez fitas VHS e quatro DVDs lançados depois, os x-plastics circulam poderosos no circuito mainstream de pornografia. Libertinos do Séc. XXI, lançado no mercado em dezembro pela distribuidora Explícita, foi o turning point, o momento em que os caras puderam sentir-se bem rodados. O atual projeto em desenvolvimento, com Adriana (retratada nestas páginas), é altamente profissional.
A expressão pornô da X-Plastic não se resume ao vídeo. A Internet lhes serve, além de vitrine, como ponto de encontro e de troca de informações com figuras badaladas da cena pornô, como Joanna Angel (do site BurningAngel), Chase Lisbon (dono do site Supercult e de quem os outrora aspirantes ganharam sua primeira câmera digital), a atriz Dana de Armond e outros.
O site da X-Plastic oferece vídeos e clipes feitos por eles e seus parceiros, ensaios de X Girls, exibe experimentações na seção X-Lab e entrevistas sem pudores com figuras da pornografia alternativa internacional.
“O público de pornografia é mais exigente do que supõe quem toma as decisões nas revistas”, diz Rufião. Ele e seus pares de cena vêm conquistando silenciosamente uma legião de fãs culturalmente qualificados e, em geral, não contemplados pela produção do mainstream. Para ele, seu público é composto pelas “pessoas que gostam de pornografia e estavam de saco cheio do que se vê sempre por aí”, como “jovens adultos envolvidos na cena alternativa (que envolve rock, música eletrônica, zines, etc) que nunca se viram representados em um vídeo pornô”, por exemplo. “Depois de conhecer outros sites de alt.porn confesso que visito bem menos os tradicionais e as revistas também me entediam um pouco. Acho que são feitas para pessoas que não têm nada a ver com o que nós gostamos, compramos, comemos: questão de estilo de vida”.
Resumindo, Rufião acha que “os donos das revistas são míopes”. Ele não está falando do caso de ELEELA, claro. Ou nem estaria aqui falando, com exclusividade. Ele pode parecer um tanto exagerado, mas há dados que precedem e reforçam a sua opinião. A badalada revista Wired já apontou que o percentual de público feminino pagante nos sites alternativos é mais que o dobro que a percentagem de mulheres assinantes de revistas eróticas – há 35% de mulheres assinantes de sites alternativos contra 17% de mulheres assinantes de revistas. O apelo irresistível de sites como Suicide Girls, Vivid Alt e Fleshbot ou dos filmes de diretores como Eon Mckai não deixa dúvida que há mais a se explorar na pornografia do que imagina quem geralmente tem muito dinheiro para investir. Pelo menos, por enquanto.
Além de subversiva, a pornografia alternativa se afirma como promissora. Apesar do mercado brasileiro ser ainda incipiente, Rufião projeta um “novo” gênero ocupando, no futuro, um espaço nas prateleiras das lojas e locadoras, entre drama, comédia, aventura e policial: o gênero alt.porn. "Com a Vividalt.com acabou a fase underground para todo mundo. Estamos entrando no mercado e isso não é ruim, é natural para tudo que tem alguma qualidade. Mas não podemos esquecer: a Internet está revolucionando o vídeo e não dá para saber o que vai acontecer daqui alguns anos. Cabe a cada um manter-se íntegro no que está a fim de fazer”.
* Esta matéria foi exibida no site: http://eleela.terra.com.br